Cute Pink Kaoani

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Só pra você viver mais




"Se fechar os olhos posso lembrar bem do sorriso dela em meio a nossa zueira de criança, do carão pelo desconfiado dedinho no bolo, entre outras traquinagens. Como era bom! Como tenho saudades do tempo em que me bastava um colinho e o joelho doído já não latejava mais. Bastava um olhar reconfortante e aquela bronca já era esquecida.  Como tenho saudades do tempo que não precisava decidir coisas grandiosas, a maior coisa que decidia aquela época era o tamanho do choquito que dividiria com meu irmão. O maior problema que tinha era se no domingo a mamãe iria querer ir à casa da Vovó. Nossa! Como era fácil também sentir-me completa, satisfeita com a vida. Andar por aquela praçinha e alguns quarteirões até chegar à casa da Dona Tereza era tanto. Era tudo. Chegar lá ganhar o maior e melhor abraço do mundo. Sentar à mesa com deliciosos biscoitinhos amanteigados que mais pareciam ser feitos de puro amor. Era a forma de Amor mais verdadeira e palpável que alguém podia me oferecer àquela época. Horas de uma tarde de domingo a preparar aquele biscoito de carinho. Era um amor que nunca magoa. O amor que só soma não precisa dividir ou diminuir de forma injusta nada, nadinha! Não é essa forma de amar do nosso mundinho dos adultos onde aprendemos a dividir e diminuir de uma forma injusta, que trás tanta dor, tanta falta de vontade de acreditar na vida e nas pessoas. Tanta amargura pra alma. Como tenho saudades de quando os problemas não passavam de equações matemáticas. De quem descobriu o que e quando. De quando ia ser a prova de inglês ou que horas o Pai ia chegar, e junto com ele a bronca por se danar. Não que lamente pelo que vivo. Mas lamento tanto por ter chorado por bobagens quando criança. Lamento por não ter certeza que aquela época era só felicidade. Lamento também por ainda não conseguir tão bem encaixar-me em meio a esse mundo de adultos e nossos enormes problemas. Dores inesgotáveis, amarguras guardadas por uma eternidade. Lamento por gente que não lamenta. Que não sente as dores do mundo, não se compadece com o sofrimento alheio. Lamento por não conseguir ser igual a eles. Gente assim não sente na alma o que sinto agora. Lamento por não poder remediar, lamento porque não aprendi no tempo certo a deixar um pouco a dor dos outros pra lá. Lamento o tempo perdido por não ter podido aproveitar. Enquanto o mundo por algumas instantes me deixava ser criança a cada hora que eu podia sonhar."
É Vovó! Esse é um pedaçinho de um texto que fiz pra ti nos seus 100 anos. E agora vim aqui me despedir! Inacreditável! É só essa a palavra que cabe a esse momento. Minha religião explica muita coisa que agora sei lá se quero saber o sentido delas. Sei do mundo fora desse e de tantas coisas que você mesmo me ensinou. Mas hoje o dia amanheceu assim sem explicação para um monte de coisas. Ninguém pode me explicar, ninguém mesmo o que vou fazer com o que sinto agora. Há algum tempo já não nos víamos. Há um pouco mais eu não escuto sua voz, lembro-me bem da última vez que a escutei falar sobre os óculos do João Vitor e perguntar a quantas andava a minha vida. Lembro tanto Vó! Da sua torcida pela minha felicidade de tudo o que fez podendo e sem puder, só para ver o meu sorriso. Doces, biscoitos, comidinhas e tudo o que me fazia deixar a cara emburrada e correr para o teu abraço. Fui muito feliz ao teu lado. Tive uma infância cheia do teu dedo, cheia dos teus chamegos; Era tudo muito bom. Chegou minha adolescência e lá estava você a me consolar do que eu tomava por inconsolável, todos os amores, lamentos, você conheceu todos. Tudo que deu certo e tudo que foi muito errado. E vieram os tropeços por não seguir os teus tantos conselhos e até nesse momento eu pude contar com você ao meu lado. Entre todos os meus lamentos por esse momento só um choro, mas, é em um pranto conformado de ti guardei tudo de melhor, teu sorriso, olhar e jeitão apaixonado de por me caducar. Talvez por isso não queira ver-te na decadência dessa vida. Não quero trocar nunca a lembrança da tua gargalhada pelas minhas palhaçadas, pelo silêncio que aos pouquinhos tua vida se transformou e definhou. Não minha Vó! Não quero ouvir nada sobre o que você passou. Quem fez isso ou aquilo, quem foi omisso e quem mais pecou. Não quero saber da tristeza, não quero lembrar do dia em que você morreu para o mundo, quando calaram tua voz, tomaram suas pernas, laçaram suas mãos, tomaram sua vida. Não quero Vovó! Não quero lembrar do dia em que vi aquela casa vazia, a saudade que deu daquela cadeira de balanço, não quero mais passar por aquela calçada e nunca mais, nunca mais vou querer ver aquela porta fechada. Não foi hoje nós sabemos. Sabemos bem que hoje você só mudou de lugar, mas sua partida já foi muito antes. Exatamente no dia em que fecharam as portas daquela casinha. E esse tipo de crime por enquanto aqui no nosso mundo ainda não é qualificado. Mas não importa! Você sempre vai viver. Você nunca vai partir. Você nunca saiu do meu coração. Você e a mamãe sempre me prometeram nunca me deixar sozinha. E eu sei que não eram só palavras. Sei que é esse amor que até hoje me ajuda a viver e fez-me ser a pessoa que sou. Sei que nem por um segundo você nunca me deixaria só. Mas como eu queria! Como queria te fazer viver mais. Disseram pra mim que não levasse a Anna Sophia para você conhecer. Que você já nem mais entendia, nem ia saber quem era aquele bebê. Mas hoje eu mesma posso te convidar! Você agora sim pode me ouvir. Venha cá, pode vir visitar a sua bisnetinha que dizem ter muito de mim. E ela terá não só na aparência. Terá de mim tudo o que você e a mamãe me ensinaram a ser. E por vocês vai carregar o maior do mundo, porque não é a morte que faz a gente deixar de amar ou deixar de ser. E serás pra sempre, todo o sempre na minha vida, para teus bisnetos e claro para minha mãe e tua filha, a maior prova do carinho e o cuidado que por nós Deus poderia ter.
Eu te amo muito, daqui até a lua, como eu sempre, desde pequenininha disse no seu colo á você.

Lia Joca





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