Cute Pink Kaoani

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A porta ao lado

A criança que enchia a casa de alegria, hoje é alguém no quarto ao lado que se perde cada dia mais de nós, entre emails, redes sociais, música alta e sem letra e amigos sem rostos. Mas quando foi que começamos a nos perder deles? Há! Não dá tempo de pensar nisso estamos sempre trabalhando e quando chegamos não dá para não ligar imediatamente a TV para assistir as tragédias do mundo lá fora. Esquecemos da nossa própria tragédia no quarto ao lado, Onde estava que não vi quando ele saiu? Será que não devia ter levantado mais vezes do sofá e ter ido á porta ver os rostos dos amigos que o acompanhavam as baladas? Será que ficamos mesmo todas as noites necessárias acordados vendo a chegada deles? Será que ao invés da bronca pela nota baixa na escola, não era melhor ter dado o abraço e sentado pra conversar? Será que ainda lembro o derradeiro abraço de carinho que apesar de estarmos separados só por algumas horas, parecia que ele não me via há uma vida inteira? E como era bom! E os amiguinhos de bola de gude e pelada que filavam o jantar na mesa da sala a onde estão? Onde será que foi parar sua risada, as suas belas tiradas e sua cara lavada quando dizia não merecer palmada? Onde estivemos? E quem são essas pessoas que nasceram de nós, mas não sabem mais quem somos? Por que não somos mais amigos? Porque a notícia do jornal hoje e mais interessante que sua foto na estante, lembrando sua ausência constante e que não tenho mais você? O quanto chora pai e mãe de filho morto? E o quanto devemos chorar por já termos no quarto ao lado mortos vivos? Que a nossa falta de lembrança deixou cair na ignorância por onde eles andavam. E da escola, ele saiu a que horas que demora tanto á chegar em casa? E da balada para onde é que ele passa que só o vejo dois dias depois? Aquela porta sempre fechada é o que nos separa? Ou é a TV? A minha vida sempre a correr, que nem me deixou ver que você crescia no quarto ao lado. No quarto ao lado. De lado dos meus negócios, TV, jornal e toda minha vida social. Deixei você isolado do meu mundo também privado. E esqueci-me de te ver crescer. Paguei suas contas, mas nunca me interessei pelo que pagava e nem notava o quanto você gastava na escola ou nas baladas o que importava era saber que eu te sustentava e nem se quer ligava para o que você sonhava. De tantos sonhos não ouvidos, Você esqueceu que podia contar comigo e se trancou nesse mundo estranho. Onde só o garoto que bate a porta pode saber onde você está e eu depois de me perguntar tanto vou terminar por ser sempre o estranho que paga suas contas e te dá à bronca por não saber mais como te ganhar. Diante dessa nossa tragédia, serão maiores as tragédias do mundo ou ainda vamos passar por elas? Se não o conheço mais e a mim aquele rapaz também trata como estranho. E os jornais que assistimos não trazem menos nem mais que conseqüência de nossa própria negligencia com a vida de nossos filhos. Quando não conhecemos o amigo que o pode indicar o caminho do perigo, do tráfico e da vida que não tem volta. E isso não é tragédia dos pobres, pois os mais ricos também morrem na mão do traficante que tomou o lugar de pai. E a criança que um dia levamos a escola pode estar do outro lado da tela do jornal que assistimos, estendido ao chão de um lugar desconhecido, baleado por um bandido ou tratado como um, por não termos conquistado e termos deixado de lado a porta do quarto ao lado. E se hoje não sabia quem ele era e aquela entrada de favela nunca o imaginou lá, foi porque não o procurou o bastante, nunca teve um instante para vê-lo sonhar. E sonho que nunca soube vai te acordar todas as noites e te sufocar. Achei que pagar as contas bastaria e que ele cresceria sem se machucar, o meu abraço foi esquecido e aquele garoto esquisito não queria mais me ouvir falar. Pois nunca dei importância ao que ele tinha para falar. Os que ouviram a ele foram muitos e como todo mundo ele só quis ser escutado. E foram os mesmos que o largaram ali naquele estado, os caras do caminho errado, mas eu não estava por perto da sua estrada para indicar por onde devia andar. O quarto ao lado vazio e a porta aberta que hoje o faz tremer de frio. Você hoje só chora e não se importa que seu outro filho se revolta, bate a porta e se isola. Não sabe que a cada hora que se passa aquela outra porta fechada pode ser prenúncio de uma nova tragédia que você passou a vida traçando e nunca se deu conta disso. Em Memória de todos os filhos que só precisavam que nós desligássemos a TV.
Lia Joca 16/08/2010

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